NATAL

O natal chegou e se foi sobrevoando os flamboyants coloridos de vermelho que enfeitam Cruz das Almas como um cartão postal jorrando vida. Os meninos alvoroçados esperam ansiosamente o presente de Papai Noel que nem sempre chega. 'E bonito ver os garotos no sol da manhã seguinte, desfilando os seus brinquedos na louca, egoísta e demonstrativa alegria de mostrar o que ganhou. É feio e triste ver os outros garotos desfilando miséria com uma caixa de de graxa, buscando ansiosamente um sapato pouco lustroso, para ganhar algum dinheiro, olhando desconfiado, invejoso e desconsolado o brinquedo do mais afortunado.
Naquele Natal, João colocou o seu sapato, velho e cambaio na janela sem reboco da sua humilde casa, sem muita esperança, é certo, mas com a certeza de que um Natal qualquer desses Papai Noel lembrasse dele
Pela manhã encontrou o sapato molhado de chuva e uma pétala vermelha do flamboyant, boiando dentro do seu sapato. Saiu triste, derrotado. Encostou-se na estátua de Toninho de Castor, nosso único herói, menino pobre como ele e olhando o imenso vazio do mundo que lhe rodeava, bem perto da rua da Malva, chorou duas lágrimas claras até que uma outra pétala vermelha, caindo da mão de Deus, colou-se nas suas lágrimas, descendo suavemente como a gota de sangue que Cristo chorou trinta e três anos depois do seu Natal .

Coluninha / Jornal do Planalto -26.12.1971

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