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E A ORQUESTRA PAROU ANTES DA DANÇA
Ruídos de notícias
sofrimento sonolento
restos de vozes
espalhadas entre bulas
roupas brancas
e rabiscos de receitas
a cadência do soro
inunda o quarto
num coro glicosado
já não gritam
os clarins vermelhos
do coração calado
a batuta do maestro
é a fita negra
que amordaça os trombones
e enforca os saxofones
da orquestra dos desejos
no concerto inacabado.
EM BUSCA DA ÚLTIMA ESQUINA
Olhos baixos
enquadram
pernas e sapatos
a sola dos pecados
toca a face
das pedras da avenida
e a tarde escuta
um som de lágrimas
na voz da vida.
CONDENAÇÃO COTIDIANA DE UMA SANTA LOUCA
Elvira guarda no útero
o amor que nasce no nojo
o gozo arrancado a foice
a emoção fruto de um coice
na testa do coração
seu rosto mofado
exala monturo
pelas frestas das rugas
seu beijo tem o rosto
do mijo dos esgotos
sua pele é macia
como tartarugas
tem a pureza dos ratos
hálito de porcos do mato
cabelos de arame farpado
cílios elásticos
sua dança é de tremores
girando o corpo crivado
por baionetas de plástico
sua música é o uivo
de hienas suburbanas
sons latejantes, arrotos
de instrumentos nanicos
uma ópera tétrica
de cantores tísicos
e paixões insanas
no trono de fogo
brinda a loucura
com pílulas de vinho
e vomita angústias
de aço e espinhos
e desejos capados.
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